Circo: diverte, educa, motiva

O circo tem se remodelado investindo sofisticação. Mas é fora dos picadeiros que essa arte vem ganhando espaço, dando novos sentidos a visão sobre o circo.


Revista 11 – Março / Abril 2014

Sem título-1A arte circense é uma das mais antigas da humanidade. Pode ter começado no Egito ou no exército chinês, sendo utilizada inclusive para desenvolvimento de técnicas corporais dos soldados. Passou pela crueldade romana tendo o Circus Maximus como expoente, alguns de seus truques chegaram a fazer parte de rituais religiosos e no universo das artes e do entretenimento se consolidou.

Por ter suas origens difusoras em artistas de rua, trazida ao Brasil e a outros vários cantos do mundo por ciganos, ainda que tenha sido usada para divertir cortes, a arte circense esteve durante muito tempo ligada a imagem de povos nômades, sendo praticada por famílias e comunidades que passavam as técnicas de pai para filho.

Se na época do império romano a luta de gladiadores e animais selvagens fazia sucesso, na modernidade os maus tratos aos animais foi motivo de descrédito. Por isso, deixando de lado as bizarrices e animais ferozes, o circo tem se remodelado investindo em roupas, cenários e números acrobáticos cada vez mais sofisticados, como o Cirque du Soleil. Mas é fora dos picadeiros que essa arte vem ganhando espaço, dando novos sentidos a visão sobre o circo.

“Já fiz três casamentos. Fui contratado para fazer a parte recreativa, para não ser uma coisa entediante para crianças”, diz Marcelo Prado dos Anjos. “Muita gente veio elogiar ter um palhaço no meu casamento, as crianças ficaram entretidas e os pais puderam aproveitar a festa”, diz Fernanda Silva.

Sem título-1Algumas instituições como o Sesc, que recentemente inaugurou um núcleo técnico só para o gênero, estão abrindo cada vez mais espaço. O projeto “Encontros” do Metrô é outro exemplo, que convidou artistas de todas as áreas para apresentações nas estações, visando oferecer aos usuários um pouco de arte na rotina agitada da cidade. “Você precisa mostrar algo que chame a atenção, que aguce a curiosidade. E foi uma surpresa porque as pessoas estão de passagem, sempre correndo. Elas não vão ao Metrô para assistir um espetáculo. E ainda assim muita gente parava para ver”, comenta Marcelo.

Marcelo começou com recreação em festas infantis, acampamentos, eventos de férias em hotéis. “Eu era comerciante e larguei tudo. A principio achei que tivesse feito a escolha errada. Não tinha nada e descobri que precisava fazer mais capacitação. Quando eu ia no circo, via que os palhaços tinham brincadeiras que tinham muito a ver com a recreação, só que eles usavam a figura do palhaço para fazer determinadas brincadeiras. Então comecei a perceber que as cantigas de roda e coisas do gênero, tinham esse universo meio de circo, meio de recreação”.

E não é só o palhaço que tem extravasado os limites do circo, acrobatas e outros artistas atuam em desfiles, shows de música, eventos empresariais, SIPAT, festas de fim de ano e até como professores de academias, pois a relação forte dessa arte com a Educação Física tem sido cada vez mais reconhecida. E esse reconhecimento das técnicas e práticas do circo também tem impulsionado a arte como ferramenta na educação.

Sem título-1O Circo Social, por exemplo, é considerado um dos conceitos que alcançaram mais sucesso em organizações que aplicam a arte circense como forma de diálogo pedagógico com crianças e jovens das periferias. “Acreditamos que o circo coloca o ser humano em uma situação diferenciada, porque trabalha em permanência com o risco”, explica Vinícius Daumas, artista circense, cofundador e coodenador artístico do Circo Crescer e Viver. “Por meio do circo podemos levantar a autoestima, trabalhar o senso de coletividade, a comunicação, a relação interpessoal e intrapessoal, a capacidade de lidar com situações de risco”.

Porém, se no picadeiro, em eventos e na sociedade os artistas encantam as pessoas, nos hospitais são eles que ganham uma alegria de viver. “O que mais me atrai é poder levar um pouco de alegria para as crianças, adolescentes, seus acompanhantes e até mesmo para os funcionários. Vitor Batatinha - Operacao Arco Iris (4)Tirar essas pessoas da dura rotina do hospital, por poucos minutos que seja, é extremamente gratificante. Nesses muitos anos de atuação, passei por momentos difíceis, por passagens tristes, por decepções. Nem sempre é um trabalho fácil. Nem sempre temos sucesso. Mas sempre vale a pena. São tantas histórias… Ver o alívio de uma mãe no momento que, no meio de uma brincadeira, seu filho comeu todo o almoço, depois de 15 dias de resistência; receber um desenho de uma criança; ouvir da enfermeira que uma criança passou a semana inteira perguntando pelos palhaços, ou de uma mãe que seu filho quer muito receber nossa visita… Como é bom!”, diz Vitor Murahovschi, que trabalha com Sistemas de Gestão Integrada e Gerenciamento de Projetos, e é voluntário da ONG Operação Arco-Íris.

4948895821_17d7c39658_o“Fui a primeira vez com uma moça que fazia visitas com contação de histórias, as crianças gostaram e me convidaram pra ir de novo. Como estava no auge dos Doutores da Alegria, me deu a louca, eu falei posso ir como palhaço? Ela falou tudo bem. E assim foi amor ao primeiro palhaço. Dali já surgiu o nome de Pichuruca, que foi uma criança que deu. Eu sei que quando a criança chamou Pichuruca era como se eu tivesse sendo batizado naquele momento. E eu amei o nome e falei vou ficar com esse nome. Aí comecei a ser o Dr. Pichuruca”, relembra Marcelo.

A utilização da arte cênica/circense para entretenimento em hospitais chegou ao Brasil na década de 90, com a fundação dos Doutores da Alegria, mas já era praticada nos Estados Unidos. Apesar de serem os mais famosos, muitos outros grupos ou até artistas individuais fazem esse trabalho com maestria, como são os casos da ONG Operação Arco-Íris e do Marcelo Prado dos Anjos, o Dr. Pichuruca.

Diversas pesquisas revelam que as crianças tornam-se mais colaborativas com médicos e enfermeiros após visitas de palhaços. Até nas equipes médicas foram constatadas melhorias no ambiente de trabalho, na relação entre os profissionais, no contato com os pacientes, entre outros.

No entanto, para fazer esse tipo de visita aos hospitais não é preciso ser um artista profissional. Com um pouco de talento e motivação, pois o trabalho é voluntário, algumas ONGs (como é o caso da Operação Arco-Íris) dão um treinamento, principalmente para identificar se o voluntário está apto a lidar com as situações difíceis. “Quando chegamos ao hospital, é sempre uma incógnita. Mas, para o palhaço, pelo menos para o meu palhaço, o Batatinha, o importante não é o destino, mas sim o caminho até ele. Não é assim com as crianças?”, comenta Vitor.

Em todos os entrevistados da área circense foi difícil descobrir se veio primeiro o envolvimento com a arte ou a técnica. Mas em todos foi inconfundível a motivação: se sentir bem ao fazer bem ao outro.

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ONG Operação Arco-Íris

Sem título-1A Operação-Arco Íris é uma instituição sem fins lucrativos que realiza trabalho voluntário em hospitais utilizando a técnica do palhaço. Criada em março de 1994 em São Paulo, a ONG (Organização Não-Governamental) conta hoje com 36 integrantes que realizam visitas regulares a quatro hospitais em São Paulo, levando alegria a cerca de 7 mil crianças e adolescentes. Hospitais: GRAAC, Darcy Vargas, Emílio Ribas e Menino Jesus

Acesse o site, o blog e o Facebook para conferir o trabalho deles!

Vitor Murahovschi, o palhaço Batatinha da ONG, é Graduado e pós-graduado em Engenharia de Produção (com ênfase em Qualidade) e com MBA em Gestão e Tecnologias Ambientais , todos os cursos realizados na POLI – USP, com vários cursos de especialização. Pós-graduado em Comunicação Organizacional na Cásper Líbero. Trabalho com Sistemas de Gestão Integrada (Qualidade, Meio Ambiente, Saúde e Segurança) e Gerenciamento de Projetos.

Se você quer ser voluntário, então veja a dica do Vitor: “No caso da Operação Arco-Íris, não é necessária nenhuma formação prévia. Não precisa ser artista. Apenas a participação nas oficinas preparatórias, promovidas pela própria ONG e posterior aprovação do pessoal que ministrou as oficinas (nem todas as pessoas interessadas em realizar o trabalho tem perfil para isso…). Varia de ano para ano, mas normalmente são quatro oficinas de sábado de manhã, no segundo semestre de cada ano. Os novos voluntários, aprovados nas oficinas, iniciam o trabalho no ano seguinte, sempre formando duplas ou trios com voluntários mais antigos”.

Marcelo Prado dos Anjos – Dr. Pichuruca

Marcelo Prado, nasceu em São Paulo, em 1970. Comerciante, descobriu a arte e agora é eterno estudante de palhaço, circo, teatro, contação de histórias, recreação, escultura com balões, organização de acampamentos. Dentre os muitos trabalho, faz visitas hospitalares (como o CACAU). Também é administrador do projeto Circo do Céu Aberto, ao lado da artista Brenda Cueba, que pintou o quadro lindo que é nossa capa dessa edição.

Quer contratar o Dr. Pichuruca? Acesse o site e o Facebook.

Circo Social

Na internet é possível encontrar com facilidade informações e teses sobre o conceito de Circo Social. Vamos deixar aqui o link da instituição de Vinícius Daumas, Circo Crescer e Viver, citado na reportagem.

Doutores da Alegria

Confira a pesquisa completa realizada pelos Doutores da Alegria sobre o resultado do trabalho do grupo nos hospitais, clicando aqui.
E para saber mais sobre eles, acesse aqui.

 

 

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