Se é questão de títulos…

Crônica traz uma reflexão sobre honestidade, respeito e igualdade. Você exagera nos títulos?

Notícias – 07 de janeiro de 2015

Por: Daniela Antoniazzi é preparadora e revisora de textos; formada em Letras inglês/português pela FFCLCH USP e especialista em tradução.

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Foi assim. Desde pequena, minha mãe me ensinou alguns valores básicos, entre eles e, provavelmente, os mais importantes: honestidade, respeito e igualdade.

Era assim: deveríamos tratar a todos com o máximo respeito, independente de sua cor, credo, classe social, raça ou profissão. Deveríamos tratar a todos da forma como gostaríamos de ser tratados e ser honestos sempre!

Claro que esses valores foram reforçados ao longo do tempo por meu pai e outros educadores que passaram em minha vida. Lembro-me, por exemplo, de uma conversa de um professor do Ensino Médio com a mãe de uma colega de classe: A mulher pedia ao professor para aprovar sua filha que estava no 3º ano do Ensino Médio e tinha muita dificuldade em língua portuguesa. Ela dizia que eles eram “negros e pobres, ela tinha mais três filhos e precisava que a filha mais velha concluísse os estudos para poder trabalhar e ajudar nas despesas da casa”.

Eu, ansiosa, esperava do professor uma resposta positiva: “claro, ajudarei!”. Entretanto, não foi o que aconteceu. Para minha surpresa, ele respondeu a ela que não atenderia tal pedido por uma questão de respeito. Respeito à menina que merecia a chance de aprender e ter uma vida de fato melhor. Ele dizia à mãe que as dificuldades dela eram decorrentes de a terem tratado durante toda a vida como uma coitadinha incapaz, que ela não o era, e que por respeito a ela, ele a reprovaria. Desta forma, ela teria chances não só no mercado de trabalho, mas de fazer uma faculdade e decidir o que queria fazer de sua vida!

Não sei o porquê, mas esta conversa marcou-me. De forma inconsciente, segui seu raciocínio e passei a acreditar que, muitas vezes, respeitar alguém é dizer-lhe o que precisa e pode melhorar, quais suas dificuldades, defeitos e, também, dizer-lhe quando é bom, quando é melhor que nós.

Levei isso para a vida: RESPEITO, IGUALDADE, HONESTIDADE!

Claro que, antes mesmo de encerrar o Ensino Médio, descobri que as coisas não são bem assim. Algumas pessoas são MAIS IGUAIS que outras e, portanto, merecem MAIS RESPEITO. Descobri que a hierarquia está, muitas vezes, acima desses dois valores e, às vezes, até da honestidade!

Lembro-me, como se fosse hoje. Quando eu tinha 12 anos, recebemos em casa a visita do meu avô, tinha ele mais ou menos 80 anos. Lembro-me que eu assistia à televisão na cozinha, já tarde da noite, e que ele se levantou, foi até lá, desligou a televisão e ligou o rádio. Não hesitei, pensei: RESPEITO!

Sem falar nada, levantei-me e religuei a televisão. Ele aumentou o volume de seu rádio, eu aumentei o volume da minha televisão e assim sucessivamente, até que ninguém conseguisse dormir.

Minha mãe veio até a cozinha e chamou minha atenção: “Desliga a televisão, seu avô está escutando rádio!”. Ingênua, acreditando no forte princípio do respeito respondi: “Mas eu já estava assistindo televisão, quando ele chegou, desligou minha televisão, sem pedir licença, e ligou o rádio”.

Mamãe não teve dúvida: “Mas ele é seu avô!”. E eu, mesmo sem conhecer, agi como Mafalda: “E eu sou a neta. Por isso mesmo ele deveria me respeitar, deveria dar o exemplo! Se queria que eu desligasse a televisão para ouvir rádio, era só me pedir licença!”.

Meu avô sorriu e respondeu: “Minha filha, ela está certa! De fato, eu é que fui o mal-educado. Eu deveria ter pedido licença”.

Passados mais de 20 anos, entretanto, concluo que meus valores, por melhores que sejam, beiram a ingenuidade. A “hierarquia” vivida com meu avô está presente em todos os momentos da minha vida.

Tento tratar meus “subordinados” como eu gostaria de ser tratada naquela época, COM RESPEITO e, modéstia à parte, sempre funcionou. O princípio da honestidade, também contribuiu muitas vezes nessas relações, principalmente com adolescentes.

Entretanto, percebo que, no mundo adulto, principalmente o corporativo, a HIERARQUIA tem estado muito acima do RESPEITO e da IGUALDADE, obviamente. Claro que a hierarquia existe para tornar o mundo mais organizado, para que alguns possam estabelecer regras e cooperar para o bem comum. Mas, a reflexão que quero deixar para cada um é: existe RESPEITO em suas decisões, em suas ações? Não há nada mais agressivo para a alma do que sentir-se DESRESPEITADA.

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